Raul e Rodrigo cresceram numa Lisboa em mutação, assistindo ao quotidiano de demolições com o desconforto de quem tem um prego espetado no olho. Anos mais tarde, separados por diferentes caminhos, acordaram reunir-se numa viagem ao continente africano. Eram, porém, já três estranhos. O destino foi um campo arqueológico situado às portas do Saara, no sul da Tunísia. Aí conheceram Enzo, participante vindo de Itália, e Nabil, um habitante local. Por razões que só descobririam mais tarde, Raul nunca chegou a juntar-se ao grupo.

Durante uma deslocação ao Saara foram surpreendidos por uma tempestade de areia que os isolou no deserto e revelou a faceta mentalmente desequilibrada de Rodrigo, o “Voador”. Enzo e Nabil partiram sozinhos em busca de auxílio mas foram confundidos por contrabandistas por uma patrulha da polícia que, abrindo fogo, feriu Renzo.
De retorno a Lisboa souberam da notícia que Raul tinha sido um dos desaparecidos num atentado bombista na Gare de Bolonha. A partir desse dia Raul passou a representar um incontornável peso na consciência, com a secreta esperança de o ver regressado de Alcácer-Quibir, numa manhã de nevoeiro. Enquanto, do outro lado do Mediterrâneo Nabil escrevia cartas pedindo ajuda para ir para os “Estados Unidos”, por cá foi feito um inquérito a estes dois incidentes, no qual o agente Elias, suspeitando de Rodrigo, perseguiu-o com inabalável fervor.

Inesperadamente Enzo, já restabelecido do ferimento sofrido no Incidente El-Ksour, viajou até Lisboa, portador de um embrulho cujo remetente jurara não divulgar e que continha a mala de Raul. Teriam os acontecimentos no Saara sido realmente um acidente? Que fazia Raul na Gare de Bolonha e qual o conteúdo da sua misteriosa mala.

Fugindo á resposta destas questões Rodrigo partiu para Angola onde descobriu que Raul, afinal, não tinha morrido em Bolonha, estando a viver na ilha do Mussulo na baía de Luanda. Voador só sairia daquela ilha quinze anos depois. Nesse mesmo ano de 2001, enquanto Rodrigo escapava ao seu fado africano, Nabil conseguiu finalmente a sua tão almejada viagem para a América num avião que despenhar-se-ia contra o edifício do World Trade Center.

Simultaneamente inventada e real o painel de azulejos da vida torna-se ilegível com o tempo, uma vez que destinos interrompidos, paixões imaginárias e obsessões duma vida inteira conduziram estas personagens á insanidade, comungando uma amizade com duas caras; uma leal outra enganadora.

“A Cidade Suspensa” é um projecto de Penim Loureiro, ainda sem editora. Nascido em 1963, Penim Loureiro desenhou intensamente de 1979 (ano onde já era participante habitual nos concursos e exposições de BD em Portugal) a 1984, com BD’s publicadas em jornais como o Sete, O Diário, Notícia ou Diário Popular, na revista Tintin, Jornal de BD, Ruptura, Ritmo, Amargem, Boletim do CPBD e na revista espanhola Un Fanzine Llamado Camello. A partir deste ano interrompeu a banda desenhada para se dedicar à arquitetura. E mais tarde à arqueologia.

Iniciado em 2013, “A Cidade Suspensa” é um projeto autobiográfico ficcionado – mais um para adicionar às múltiplas de obras de catarse produzidas na atualidade – que procura arrumar, definitivamente, alguns episódios e questões reais por resolver.

Podem acompanhar o trabalho a evolução de “A Cidade Suspensa” na sua página de Facebook.

 

em "aCalopsia -Um Mundo aos Quadradinhos"

 

Terra de Milagres de João Felgar

crisdelgado1 / Setembro 17, 2014  (em http://rodadoslivros.wordpress.com/2014/09/17/terra-de-milagres-de-joao-felgar/)

 

Mal acabei de ler este livro tive a exacta noção que por mais que eu escrevesse não conseguiria descrever completamente o quanto eu gostei dele! Aliás, gostar é pouco! Confesso que fui apanhada de surpresa! Não esperava apaixonar-me tão rapidamente pela história nem pela escrita do autor.

 

Começa assim: “A fertilidade das mulheres é um caminho de sangue e dor. – disse Júlia, com uma fileira de alfinetes na boca.- Enquanto os rapazes jogam futebol e andam aos nínhos, estamos nós tolhidas com as dores da história sem sabermos bem para que serve aquilo. A perda da virgindade é a paga com as dores de uma punição, de preferência no dia mais bonito da nossa vida! E, por fim, a maternidade, em que damos uivos de lobas, com dores de se ver lume. Tudo isto sempre com sangue pelo meio.”

 

Não costumo colocar aqui exertos dos livros que leio porque, para ser sincera, sou um pouco preguiçosa, mas não consegui deixar transcrever este primeiro pagrágrafo de Júlia, de tal forma ele me cativou à primeira!

 

 

Júlia é uma das personagens principais deste livro e uma das mais bem conseguidas. Costureira sem estudos, que devora as Selecções do Readers Digest, para daí assimilar e decorar vários ensinamentos, é uma mulher sábia nos conselhos que transmite às suas filhas e a todas as aprendizas do ofício que lhe passam pelas mãos. Sem escolha nem poder de decisão, num Portugal de há nem tantos anos assim, Júlia viu-se a braços com um casamento com o cunhado, depois da morte da sua irmã, e com uma sobrinha de poucos meses. Aprendeu a tirar o melhor partido que a vida lhe deu mas… A vida dela foi um rol de surpresas tanto como as páginas desta obra! Tornei-me instantaneamente “amiga” de Júlia, tal as gargalhadas interiores que dei com ela e por causa dela.

Para além desta personagem muito sui generis, cheia de uma ironia que adorei, existem outras que foram tão bem aprofundadas como Júlia, a saber: Leta e Laidinha, suas filhas; Luzia, sua neta e futura santinha da aldeia; Agripina, dona de uma pensão e dada a intimidades frequentes e passageiras com os seus hóspedes; Gualter, com a sua figura delicada, carácter extravagante e …e tantos outras que povoaram este meu fim de semana e o encheram de surpresas, suspense, risos mas também murros no estômago. Sim, porque a meio do livro, quando pensava que tudo fluiria calmamente, há uma reviravolta que me virou por completo por dentro e que vem dar um novo rumo à história. Para não desvendar o mistério, porque não é isso o pretendido, digo só que há “luas-de-mel” diferentes das sonhadas!

Caracterizando espectacularmente o ambiente de uma pequena aldeia perdida e fechada em si mesmo quer em termos de mentalidades quer geograficamente, João Felgar espantou-me com a sua escrita cuidada, irrepreensível mas ao mesmo tempo fácil de ler, irónica q.b. Escolhida a dedo mas fluída. Um retrato muito bem conseguido de uma época não tão longe assim e uma crítica implícita ao tema que o título deixa transparecer, os milagres. Com saltos no tempo que servem para melhor nos situarmos e caracterizar as personagens, sem que com eles nos percamos ou diminuamos o interesse pela história tão peculiar.

Acredito ter lido o meu romance de 2014. Nota máxima. Espero que não tarde muito a conhecer uma nova obra deste autor. Quantos livros estarão na gaveta do escritor? Sim, porque não acredito que haja alguém que, logo numa primeira vez, consiga sentar-se na secretária e escrever algo assim… Este é um livro que recomendo a todos: aos que gostam de romances mais leves e divertidos mas também aos que exigem um pouco mais. Creio que todos ficarão muito satisfeitos e agradados. Como eu. Espero sinceramente que este livro não passe despercebido!

 

Sinopse:

 

Júlia é costureira numa aldeia do interior português. Na mesma terra, vivem as suas filhas Leta Mirita e Adelaide. A primeira vive um casamento infeliz, depois de se ter entregado a um homem que lhe prometeu «uma vida bonita». Quanto a Adelaide, só ela sabe o que se passa entre as paredes do quarto que partilha com Antero, seu marido.

Numa noite de temporal o rio invade a aldeia, destrói a ponte que a liga ao resto do mundo, e leva consigo os seis filhos varões de Adelaide. Quando as águas do rio se acalmam, Luzia de Siracusa, filha de Adelaide, vive os seus primeiros arrebatamentos místicos.

A fama de santa e milagreira corre veloz, e dá origem a um culto popular que atrai à aldeia multidões de peregrinos e devotos, indiferentes à hostilidade que o fenómeno inspira às autoridades eclesiásticas.

Ódios e cumplicidades entrelaçam-se com os comportamentos e hábitos do nosso tempo e da nossa terra. Uma terra onde por trás de um segredo se esconde sempre outro, e onde nem os milagres são o que parecem.

 

 

Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo,

é o Prémio Correntes d' Escritas 2014

 

 

Para o júri, esta é “uma singular parábola sobre a literatura e o seu poder redentor”.

Marmelo concorria na shortlist com Rui Zink, Juan Marsé, António Cabrita e Ricardo Menéndez Salmón.

 

Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, é a obra vencedora do Prémio Correntes

d'Escritas 2014, anunciou esta quinta-feira a organização do encontro literário na Póvoa de Varzim.

A obra é elogiada pelo júri como “uma singular parábola sobre a literatura e o seu poder redentor”

que confirma “a maturidade do autor no domínio da narrativa”.

A 15.ª edição do festival literário Correntes d'Escritas decorre entre esta quinta-feira e sábado na Póvoa

de Varzim e o prémio no valor de 20 mil euros é entregue na sessão de encerramento do evento.

Uma Mentira Mil Vezes Repetida foi escolhido entre 15 obras finalistas e, segundo o júri constituído por Isabel Pires de Lima, Carlos Quiroga, Patrícia Reis, Pedro Teixeira Neves e Sara Figueiredo Costa, trata-se de uma narrativa “potencialmente infinita e de assumido pendor borgesiano”, que “permite lançar pontes para uma reflexão sobre os totalitarismos”.

Evocando “as palavras de Goebbels” que ecoam “desde o título”, o júri, que decidiu este prémio por maioria, destaca ainda que a narrativa de Manuel Jorge Marmelo se ancora “num quotidiano prosaico de uma cidade reconhecível na qual irrompem laivos de actualidade”. Em Uma Mentira Mil Vezes Repetida, editado pela Quetzal em 2011, o júri destaca ainda “a convocação da memória colectiva, através da atenção às múltiplas vozes que vão irrompendo”, que “propicia uma repescagem valorativa da dimensão oral da palavra”.

Na manhã desta quinta-feira, Manuel Jorge Marmelo recordou que, ao conhecer a lista de finalistas, o viu como “um grupo muito complicado” e considerou que “dificilmente teria ali alguma possibilidade de vencer”. O Prémio Correntes d' Escritas 2014 “vem na altura mais complicada da minha vida, uma vez que estou desempregado”, disse ainda o ex-jornalista do PÚBLICO, que se descreveu como “vítima da reestruturação da economia”.

Após o anúncio do prémio, Manuel Jorge Marmelo explicou que depois de ficar desempregado lançou em auto-edição um livro de contos e as Crónicas do Autocarro através da Amazon, que permite imprimir os livros após compra. Porquê? "Para me manter ocupado e porque nas editoras dizem que os meus livros não vendem, e os de contos ainda menos”, explicou. O tempo permitiu-lhe ainda terminar um romance e estar prestes a acabar um outro, mas sem “perspectivas de editar nenhum nos tempos mais próximos”. 

Nesta obra, que Marmelo considera o seu "romance mais maduro", “o narrador é alguém que vai inventando um livro que não existe, e que é atribuído a um judeu húngaro que terá fugido durante a II Guerra Mundial”, fuga durante a qual chega a Portugal. Sobre as alusões Jorge Luis Borges, tanto pela crítica quanto pelo próprio júri a propósito deste livro, o escritor diz que essa proximidade “não foi intencional, embora haja uma passagem do livro em que o narrador – a pessoa que vai inventando as várias histórias, as várias mentiras, inventa uma história em que se faz passar pelo Borges e depois é perseguido por uma organização secreta de pessoas que tentam evitar falsificações do Borges…”, diz. 

O Prémio Literário Correntes d'Escritas/Casino da Póvoa é atribuído anual e alternadamente à poesia e à prosa. Neste ano da prosa, a Câmara da Póvoa de Varzim seleccionara como finalistas, além de Uma Mentira Mil Vezes Repetida, A Instalação do Medo, de Rui Zink, A Luz É Mais Antiga que o Amor, de Ricardo Menéndez Salmón, A Maldição de Ondina, de António Cabrita, A Sul. O Sombreiro, de Pepetela, A Vida no Céu, de José Eduardo Agualusa, Caligrafia dos Sonhos, de Juan Marsé, Dentro de Ti Ver o Mar, de Inês Pedrosa, Diário da Queda, de Michel Laub, Metade Maior, de Julieta Monginho, O Filho de Mil Homens, de Valter Hugo Mãe, O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, Pai, Levanta-te, Vem Fazer-me um Fato de Canela, de Manuel da Silva Ramos, Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho, e Um Piano para Cavalos Altos, de Sandro William Junqueira.

Dos 15 finalistas, o júri passou a uma shortlist de cinco nomes, que além de Manuel Jorge Marmelo incluía Rui Zink, Juan Marsé, António Cabrita e Ricardo Menéndez Salmón. 

Ao agradecer o prémio na Póvoa de Varzim, Marmelo recordou ainda o escritor Manuel António Pina, que morreu em Dezembro de 2012 e que foi a primeira pessoa a apresentar Uma Mentira Mil Vezes Repetida, em Matosinhos. Pina “faz-nos muita falta, todos os dias, pela sua forma cívica e ética de olhar para o mundo”.

 

Em: http://www.publico.pt

 

 

 

O mundo em guerra entre Norte e Sul em No Céu Não Há Limões, de Sandro William Junqueira.

 

SINOPSE

 

No Céu não Há Limões descreve um mundo em guerra entre o Norte rico e o Sul pobre, em que os pobres do Sul tentam por todos os meios ter acesso ao bem-estar do Norte, e os do Norte usam de todos os meios para conservar a sua riqueza só para si.
Sandro William Junqueira não apresenta soluções, mas à medida que o livro se aproxima do final uma personagem se destaca – o padre –, procurando uma saída. Será esta uma saída?
O autor não dá a resposta. A resposta fica com cada um de nós, porque este é o nosso mundo.

Sandro William Junqueira nasceu em 1974 em Umtali, na Rodésia. Experimentou a música, escultura, pintura. Foi designer gráfico. Diz poesia e trabalha regularmente como ator e encenador. Leciona expressão dramática. É autor de projetos e ateliês de promoção do livro e da leitura. Em 2012 foi considerado um dos escritores para o futuro pelo semanário Expresso.

 

"Através de um vocabulário erudito e de uma trama eximiamente costurada, Sandro

William Junqueira transporta-nos para um universo distópico, que, não obstante,

se assemelha, em grande parte, à nossa realidade ambivalente.
No Céu não Há Limões é uma obra que nos alerta para a vida e para a premente

necessidade de a viver digna e plenamente. Há que depor um pouco as providên-

cias e precauções, para podermos avançar destemidamente para um caminho

transitável, onde germinam amiúde limoeiros, porque a surpresa agradável e

imprevista é o melhor sabor que alguma vez nos deixarão degustar.
É o acaso o músculo do nosso corpo, mas quem o movimenta somos nós. Esta premissa

é desenvolvida pela dúbia vida espiritual de um padre, que está envolvido num mundo

hipócrita, duvidoso, restritivo e dissimulado, logo, idêntico ao nosso.
Estou de coração cheio e alma deslumbrada! Este romance é arrebatador, entusiasmante,

surpreendente, vibrante, eloquente, profundo, penetrante, inteligente e incisivo.
Certamente, Deus contrataria Sandro William Junqueira para que, juntos, inventarem o mundo.

Muito bom!"
Por: Rabiscosdoluar.blogspot.com
 

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